1 de junho de 2016

é estranho como o
mundo ficou pequeno
quando comecei a
repetir as estradas
e nem mesmo
fechando os olhos
com muita força
despertei aquele
apocalipse que
pensei que me
esperava
mas tenho imaginado
que o mundo pode voltar a
ser grande em um tempo
em que eu seja renovada
numa esperança infantil
lembro das chuvas de verão
e por estar propositalmente
desprotegida me sinto
infinitamente ensolarada

Cáh Morandi

31 de maio de 2016

para mim me basta
o que sei, por isso
não me prove
não reivindique
conhecer mais do
que mostro
pode ser medo
do quão profunda
me reconheço ou
do tão rasa que
você me encontre

Cáh Morandi

30 de maio de 2016

não sei qual a última porta
a ser aberta, mas sei que
que estou à frente da última
que precisa ser fechada
o som das vozes ficaram
para trás, os motivos que
antes impediam estão
em recesso agora onde
tudo é miseralvemente
razão
de pés exaustos
de coração ateu
p r o s s e g u i r
no caminho que
há depois do
adeus

Cáh Morandi
eu mesma me roubei o
direito de sonhar um
futuro que nos coubesse
e não cumpro as promessas
que escrevi com as pontas
dos dedos dos meus lábios
me perdoe a fragilidade de
colocar o amor nesse templo
inacessível à esquerda do
meu corpo e enterrar aqui
tuas esperanças sem nem
mesmo respeitar teu luto
tardia como sempre,
trago a confissão agora
que o tempo já transformou
tudo em memória

Cáh Morandi

26 de maio de 2016

salvo a covardia
o restante é possível
esquecer
fora a ferida o
sangue é possível
estancar
exceto os pesadelos
da memória é possível
dormir
separando o medo de
caminhar na rua é possível
sobreviver
apagando as 33 digitais
estranhas estampadas
pelo corpo não será possível
perdoar

Cáh Morandi

http://www.metropoles.com/brasil/policia-br/acordei-com-33-homens-em-cima-de-mim-diz-jovem-estuprada-no-rio



25 de maio de 2016

se me conheço
sei que perguntaria
sobre a espécie
depois de identificar
a raiz, mas não
quero saber tudo
um pensamento
um pouco profundo
responde os maiores
mistérios
para continuar
o mover secreto
do que é a vida,
debaixo dessa
única árvore
conto sempre
as mesmas
folhas

Cáh Morandi
os anos de escola
não me fizeram
acertar os cálculos
multilpliquei os 
enganos por não
somar o imprevisto
o resultado é exato
e não foi me dada
a múltipla escolha
para aproximar
do acerto com o
que duramente
pude encontrar
não me vejo nula,
mas me sinto
subtraída

Cáh Morandi

22 de maio de 2016

quando era de manhã
a paz balançava branca
os varais das histórias
e de tão claro o céu
nenhuma mancha
me vestia a alma
nos olhos castanhos
havia o campo que
florescia perto de um
sorriso esquecido no
canto dos lábios
só não devia caminhar
sei que andando tropeço
sobre as horas e esqueço
que sempre estou indo
para me entardecer
parada, aceitando a noite
que agora bate na janela,
sei que é a saudade
nunca atrasada

Cáh Morandi

10 de maio de 2016

embora queira, é tarde
demais para apagar-me já que
quem sou está posta sob a luz
de todos os pensamentos
dolorida e lenta tento
viver dentro do que
é simples, pois é
por complicar que
a vida dói
como me desprender
da alucinante existência
para, despercebida, passar?
é difícil não ser
invisível

Cáh Morandi

9 de maio de 2016

amar tem sido um dia
de céu azul claro
sem vestígios de
nuvens navegando:
celebrar o amor com
os festejos de um dia
santo porque é em si
o milagre nascido de
um pedido intimo
te admirar e desprevinida
deixar tuas mãos pousarem
em minha cintura e sem
contestar seguir para
onde elas me guiam

Cáh Morandi 

4 de maio de 2016

primeiro apago a luz
da cidade, para depois
caminhar nas ruas
de olhos fechados
guio o amor às pressas
pelo tato nas paredes
dos lugares que
esqueço devagar
por saber que num claro dia
a dor me cegará anunciando
o fim, é para suportar que
acostumo a ver só o que
está por trás das vendas

Cáh Morandi

2 de maio de 2016

pega de surpresa, o amor
me atravessou a pele, me
rasgou a carne, devorou
meus ossos, converteu o meu
espírito e trocou as roupas
da minha alma exausta
assim: ao me beijar a testa
lavando meus os olhos, por
desacostumar com os afetos
e ser talhada pelas
antigas durezas. assim:
ao me despertar no abraço
e me emocionar por saber
segura e tocável - ainda
ouço teus planos a me convidar
para o futuro e só o que posso
é ser cuidadosa para não comprometer
a memória: te conheço
desde quando meu poema
apenas te imaginava

Cáh Morandi

1 de maio de 2016

por ser mulher e forte
por ser fêmea e frágil
por ter voz e discurso
por ter motivo e luta
por ser incabível não
me ajusto para entrar
no infinito e por ser
de fibra não me dobro
para cumprir o destino
por ter por essência a
liberdade, por ter por
identidade a coragem
e por ser sensível ao que
posso transpor ao mundo
em um só segundo quando
levantar o corpo e a voz,
guardo a revolução
para o momento oportuno

Cáh Morandi

30 de abril de 2016

das promessas,
não peço
que as cumpra,
mas não
as esqueça
é possível conviver
com as dúvidas
não saberia
com as certezas

Cáh Morandi
prestes a virar a página
a dobrar a esquina
a desatar os nós
próxima a abrir a 
porta certa, a
carta secreta,
a palavra perdida
sacrifico o último
esforço no segundo
que separa o agora
do que virá
por que o futuro
sempre é preciso
se nunca é possível
chegar?

Cáh Morandi

26 de abril de 2016

dentre os dias, há alguns que sou
capaz de repousar sobre o fogo e não
desdobrar o gesto frio que me cobre e
me recolher sem as perguntas roubarem
o sono, e não aflita perseguir o silêncio
até parar de causar incomodo
sei que é possível me dar o direito
da paz e aceitar o invencível pedido
de trégua nas lutas não escolhidas,
conformada, sei que o perdão
é o último refúgio que me espera
e também o último confronto
mas como esquecer uma
covardia?

Cáh Morandi

25 de abril de 2016

desde muito cedo fui castigada
por não aprender as doutrinas,
inclinada à beira da pia
soube que a sede vinha
antes da unção e da benção
naquele momento Deus orou
por mim e meu ouvido já estava
distraído com uma vida pássara
de asas bem abertas e sem rédeas
bravia e indomada cortava o azul
nuances de escuridão às vezes
e uma brecha entreabindo a luz
quase cega o coração sensível,
talvez tenha despertado cedo
e não sei o que fazer ao sol

Cáh Morandi
tenho as mãos sujas
de me cavar por dentro
para me tornar profunda
e ser sem consentimentos
e favores, referencia de amores,
nomes a me endereçar,
sobrenomes a me decifrar,
histórias a me definir
perto do fundo
descubro que
não há

Cáh Morandi

24 de abril de 2016

nesses tempos tento diminuir o
mundo e me nego a concordar
com qualquer sonho que me
alargue, qualquer passo que
me apresse, qualquer livro
que me desperte

desconstruo as horas apoiada
sobre o relógio e me limito
a existência do poema
que me desafia, parada,
vencida pelo silêncio e
palavra que não vem

me oriento pelas minhas
fronteiras e o que em mim
costura ser forasteiro aparto
com o movimentar dos dedos,
me mapeio escrevendo as
memórias, delimitando o espaço,
contornando, retorno ao ventre:
nascer requer cansaço

Cáh Morandi

12 de abril de 2016


perdoe por meu amor
não dar frutos, por não
florescer meus ramos
em delicadas carícias
por não respirar o sol
em minhas folhas de
existência e vida
não pense que não
conheci as primaveras
que algum dia não
exalei beleza e perfume
que não tive cores
me tornei profunda
envolta em mim
sob o peso estéril agora
permaneco semente,
somente e agradeco

Cáh Morandi

4 de abril de 2016

é a esta pequena faixa
de luz permeando as
fibras envoltas na
na vida que me apego
e encontro a chance
de me salvar, a utopia
resguardando o inalcançável
açoitado brutalmente pela
frieza dos dias, embora haja
tímido o sol; buscando em
resistir e não aceitar e me
sentir em fracasso junto
aos que andam ao meu lado
acordada e nunca dispersa
tenho sonhado outros amanhãs,
embora saiba que só o desejo não
mova as lutas dos dias,
é do sonho que crio
a realidade possível
e prossigo


Cáh Morandi

2 de abril de 2016

não fosse o tempo das
incertezas e das chagas
e o retorno íntimo não
previsto a me deixar frágil
não fosse a verdade
ter se apropriado do medo
e a palavra não ter
naufragado na garganta
não fosse os encontros
errados demorarem tanto
e o esquecimento pudesse
cobrir o que corrompemos
considero e não posso,
mas de onde te olho
o amor parece tocável

Cáh Morandi

29 de março de 2016

queria gastar o resto do tempo
para que me desconhecesses,
que com as passar das horas
menos pudesses saber, e
desaprender os caminhos
que te guiei e que ficasse
estranho o que te fiz provar,
que houvesse ainda o receio
de ter liberdade comigo,
e não me admirar por nada
ou se preocupar com tudo
que me referencia, desaparecer
da tua memória até meu traço
ser comum a qualquer rosto
se a súplica antecedesse o milagre
e então o futuro me desse
a possibilidade de usar o
destino do avesso, evitaria
o começo e te resgataria
antes de todos os danos

Cáh Morandi
foi de recortar as dores
e espalha-las assim no
chão da sala que pude
me ver melhor e
encontrar surpresa
um fio de amor a me
resgatar
agarrada a ele com
unhas e restos, subi
do mais profundo o
meu corpo à luz de
uma esperança tímida
que me penetrou para
anular a esterilidade
que havia me escorado
exposta ao primeiro
novo golpe, não serei
dúbia aos que desconfiam:
sou mais forte no regresso

Cáh Morandi

22 de março de 2016

meu medo era esse:
habituar com tua falta
aprender a te ter
sem que estejas, e 
me sentir a vontade
na tua ausência como
se povoasse o mesmo
espaço, e aos poucos
minha voz estranhar
teu nome a ponto
de te chamar num
pensamento muito
intimo, e aconteceu de ser
que te amo e o amor não
existe, mas me sinto absolvida
por não desfazer as distâncias



Cáh Morandi

16 de março de 2016

essa emoção antiga
me brinda a lágrima
repentinamente e
um aperto saudoso
um respirar mais fundo
algo no mundo
tempo-espaço
eterno-acabado
resume a vida
uma só memória

Cáh Morandi

11 de março de 2016

para ganhar é necessário
a renúncia, o mérito
a gota de suor
a integridade do caminho
a honra da palavra
a verdade do afeto
essencial ainda é
descobrir a dor
de tudo que se
perde ao vencer

Cáh Morandi

10 de março de 2016

deveria chegar maduro
inteiro e livre, sem alarmar
sem prometer e endoidecer
não ser a pedra no caminho
e nem ser, também, o próprio
caminho, não nos ser. o amor.
a identidade foi perdida
a razão não mais recuperada
nos dá as dores, as dúvidas
e as nossas sobras. o amor,
o quanto de tudo isso é nada.

Cáh Morandi

3 de março de 2016

tanto lugar para se encontrar
e foi acontecer de ser no
labirinto de tudo o que sinto
e você de tudo que esperava
foi bem ali: nesse ponto
incógnito, na linha invisível
do trópico de capricórnio
que meu ascendente em
fogo foi descongelar
para entrar não teve segredo
nem senha, nem mistério,
e se tiver saída, onde
perderam o mapa?
onde os que nos antecederam
no amor já chegaram?

Cáh Morandi

2 de março de 2016

não é tarefa do tempo
esquecer
nem se estender para
a dor apaziguar
nem deveria me visitar
com seus ares antigos
lá, daquelas que eu vim
e nem adiantou,
distorcer o passo
alternar o compasso
pra sair do seu curso
o fato é que o tempo
sempre tem uma forma
de reaparecer, às vezes
me dizia tão moço, agora
vem deixar mais um traço
no rosto

Cáh Morandi
Já que está tudo perdido
Vou me encontrar nos
Achados de quem havia
Me esquecido
Já que o que sobra
É quase nada, há
Também quem desperdice
Não vá dizer que eu não disse:
Só estava mesmo enganada

Cáh Morandi

21 de fevereiro de 2016

Paralê-las


A partir do dia 02 de março, a versão em e-book do livro "Paralê-las", da autora Cáh Morandi já estará disponível no site da Saraiva.

 Mais info: contato@cahmorandi.com.br
há coisas que são nossas
pelo fato de não as possuirmos:
o instante passa e está
eternizado para sempre

haverá memória para
os segundos despercebidos que
piscamos - toda escuridão do
que poderia ter sido viverá
para trás dos olhos

e significará o coração

Cáh Morandi
À nós só é dada uma
chance de perder,
depois de usada,
desperdiçada ou
usufruida:
nunca mais

embora os caminhos
dos encontros sejam
muitos, e inúmeros
os mapas das surpresas

perder é decisão em
linha reta, se for
voltar, nem tente

Cáh Morandi
agora tudo está
onde deveria:
onde sempre esteve
se tivesse prestado
atenção

o coração em desordem
o pensamento ansioso
o corpo em arritmia

e uma paz silenciosa
e plena, e limpa,
e clara, nessa noite
tem uma luz do dia

Cáh Morandi
depois de guardada sob
o segredo do seu corpo
e sobre a pele dos mapas
que mentem mais sobre suas
origens do que seu destino

depois, esconde-me para
ler em minha boca o poema
que corre em minhas veias

e, depois de conhecer o que sou
além das palavras, perdoe

Cáh Morandi

11 de fevereiro de 2016

poderia ser decifrado
pela palavra atravessada
na garganta, significar ou
sinonimar sua existência

mas sempre é o que fica,
o silêncio que atravessou
o segundo interminável, o
espaço entre as palavras ao
se contar a história que não
aconteceu, o suspiro pesado
no pensamento profundo, a
carta amarelada pelo tempo
ainda presa ao caderno, o
prato que sobra ao se por
a mesa, a lembrança que
falta ao se por a vida

a loucura, a coragem,
a confissão, a irracionalidade
não vieram e

depois de não ter sido,
só a fé ressuscita
o amor


Cáh Morandi

10 de fevereiro de 2016

foi necessário duvidar do
tempo, do mapa e do conselho -
mais me valeu a dúvida
para ir em frente e longe

não precisei das respostas:
o sábio é quem
possui as perguntas

o não-saber não me define,
me ilimita. por conta disso
chego de onde vim e conto
as minhas histórias de futuro

Cáh Morandi

7 de fevereiro de 2016

sei mais das coisas que 
não tenho do que há
agora em minhas mãos
a falta - essa ausência
da qual não possuo controle-
tem intimidade comigo

tem espaços pela alma
jardins aparados, muros edificados
e se governa, como se 
meu coração fosse forasteiro
em meu próprio corpo

peregrino em mim, ao redor de
tudo que desejo

Cáh Morandi

5 de fevereiro de 2016

estamos sob o tempo
e nunca é possível
permanecer aqui

ao se encontrar - 
tua identidade é outra
ao se perder -
te descobres novo

sempre estarás
em outro lugar
do que imaginas
e pensarás ter chegado

Cáh Morandi

3 de fevereiro de 2016

(imagem: Noite Estrelada Sobre o Ródano, Vincent Van Gogh, 1888)
existe a noite para nos resgatar algo -
lembranças, medos, futuros -
essa escuridão traz à luz
o que a pressa do dia esconde

há aqui as buscas insaciadas, o tempo
dado de se fazer discursos, de escrever
o poema, de sofrer o amor.

e sempre há a estrela, o silêncio
da própria voz, o eco, o breu.
sempre haverá um deus
para nos questionar as
respostas.

Cáh Morandi

7 de janeiro de 2016



sei que tenho uma palavra sempre escondida
- na verdade, um sentimento - me colocando
sempre uma sombra no rosto, ocasionando
o desvio de olhar, o tremor do lábio inferior.
o que oculto, me faz oculta para quem desejo,
e não sabe que é desse mistério que vivo
em imaginar.
e assim, tu não sabes, que passeias de mão dadas
comigo em todos os domingos nas ruas da
minha cidade; nem sabes, mas te leio alguns
poemas certas noites e, às vezes, uma
lágrima tua me responde; tu não sabes
dos planos em que fazes parte, e até
dessa minha arte - escrever - é tu que
inspira, e motiva, e sempre é o primeiro a ler.
queria ter a coragem de te dizer as coisas
que te escrevo em todos os poemas,
- esses poemas que são tua ausência -
mas não. quero que venhas porque
o caminho até é mim seja acaso,
ou seja desejo, mas não o (meu) pedido.
mas ainda é bela essa dor de amar
tudo que não tenho.


Cáh Morandi

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