16 de abril de 2015

para os íntimos



Sinto intimidade com quem me permite o silêncio – mesmo quando as palavras poderiam ser necessárias. Quem compreende a ausência da fala inclina a cabeça em prece e também ora. Permito-me, que às vezes, o pensamento seja mais lento, que dentro de mim, se contorça, se exprima e se dilua sem alcançar minha voz. Sentir é isso: a pausa na música para o suspiro. Sentir é isso: o espaço que a terra espera para receber a próxima gota de chuva. Sentir é isso: o segundo que a pálpebra se fecha para abraçar os olhos. Sentir é isso: descobrir qual flor abriu primeiro a primavera. Não há tempo perdido na ausência, somente na falta. Ausência é ainda estar. Falta é já ter partido. Gosto de quem permite ausentar-me. Que não interrompe meu êxtase em mim. De quem não pede a escrita. Só quem nos conhece bem próximo é capaz de saber nosso silêncio e lê-lo. O silêncio é língua da intimidade.

Cáh Morandi
nunca quero saciar,
nem transbordar,
nem cansar,
nem encontrar sossego:
quero em ti, sempre encontrar
uma falta, um vazio de gestos,
uma palavra perdida, uma ausência
para que eu nunca seja
plena e completa
para que eu nunca
me encontre suficiente
que eu te ame mais
do que te ame:
que haja em mim
a incontrolável
necessidade.


Cáh Morandi

15 de abril de 2015

para quem ouvir



Empresto meu tempo à ouvir quem tem mais estradas do que eu. Não é desgastar o ouvido quando a palavra vem carregada do peso das suas histórias. Não é dispensar o que aprendi e vivi, mas reconhecer que há belezas que só quem atravessa o tempo conhece. Meu avó soube envelhecer, herdo dele os traços do rosto e a palavra bruta – que no fundo é poesia para quem sabe entender. Suas mãos calejadas dos arados dos anos e das cidades à que foi predestinado, assinam o livro de quem viveu demais para perder tempo escrevendo (estas minhas palavras são seu prefácio). Essa rudez que levemente se estampa sobre a falta de vocabulário, se esmaece ao som da sua voz. De tudo que aprendi com ele, não esperei saber do amor. Não esperei que ele me traria o sentido de tudo que já li e escrevi. Conhecimento só tem valor se é passado adiante, assim transcrevo as suas palavras, sob o olhar de minha avó: “Espero que você tenha a nossa sorte, de ter alguém que vai passar a vida com você. Porque hoje, com mais de 50 anos de casados, a melhor coisa que você tem na velhice é poder contar as mesmas histórias juntos”. Calei. Silenciei. Nenhuma palavra pode contestar o amor, principalmente diante de alguém que o viveu.

Cáh Morandi

14 de abril de 2015

sobre a poesia

Sou uma mulher de muitos livros
Incontáveis poemas me deixei, noutros fiquei por dias
Tardei em contar alguns causos, me precipite em viver o que podia
Me dei o direito de esquecer o discurso
De perder a caneta, de calejar o pulso
A poesia me tornou madura,
Mas me colheu ainda na palavra antiga,
Meu arado foi trabalhar cada letra
Desconstruir a escrita
Semear sem esperar a rima
O meu ofício sempre foi outro:
O outro.

Cáh Morandi

13 de abril de 2015

duelo



Prefiro ter entre nós o precipício. Antes o salto ao abismo do que se aproximes. Antes que tuas mãos, aparente aveludadas, alcancem meus pêlos. Evito sentir teu falso aroma de quem virá sem causar danos. Sei que há mascaras em ti. Sei que vens, disfarçando, se chamando por outros nomes, vestindo vistosas vestes. Vens sempre antes. Bem antes. Incorporada numa felicidade abrupta, num amor cheio de promessas. Numa tarde serena me iludes, sentada ao meu lado, enquanto confesso as fraquezas que usarás, algum dia, contra mim. Tu vens, pede colo, me dá teus ombros, enches meu futuro de promessas vazias. Às vezes te reconheço pela voz, outras pelo peso do teu corpo. Sei quando mastigas as palavras para confessar o pecado que irás cometer. Serpenteia minhas histórias, se parece com meus antecedentes. Até pareces próxima, parente, irmã de uma vida parecida com a minha – ou tão diferente que é possível cogitar a possibilidade de completarmo-nos. Brinco contigo sabendo quem tu és nas noites mais severas e nas manhãs mais novas. Já sei do doce que começas e no amargo que tu te tornas, e engasgas, atravessada em minha garganta. Não pense que não sei teu nome. Não pense que não sei que sempre estás à beira. Um passo. Um suspiro da minha nuca. Foge de mim, pois ainda não duvide que te venço. Ah, dor: quem de nós será nosso tormento?
Cáh Morandi

9 de abril de 2015



a minha resistência
é forçada a ceder
com a leveza que 
tuas mãos me guiam -
teus dedos firmes em

minha cintura me dando
a direção e a velocidade
com que perco os sentidos
- estou em alvoroço, e sei
que o amor está prestes
a me vencer

meu vestido no chão:
minha bandeira de paz
está estendida

Cáh Morandi

6 de abril de 2015

sorteio



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3 de abril de 2015

acordo com a vida




Deus, te agradeço pela morte, a certeza do fim adia a pressa da felicidade. Não olharei para a morte insatisfeita por sua chegada, espero apenas que ela não me surpreenda mais cedo do que imagino. Saber que ela chegará, me faz viver o minuto que tenho intensamente, dizendo mais sim para as aventuras, mais não para o que amarga os dias. Pensar que posso desaparecer me faz não negar mais amor e gentilezas, e ao fazer isso, descubro que são coisas que quanto mais dou, mais tenho parar dar – e principalmente, sobreviverão no outro apesar de mim, apesar da presença. Não penso que a morte é um limite, um ponto final, é apenas um alarme de que é preciso ter urgência em descobrir quem se é, ou se descobrimos cedo demais, reinventarmo-nos, evoluirmos. Serei egoísta com o tempo: até o último segundo, aquela última vez em que eu trazer ar para meus pulmões, não darei à ele a trégua de ser achada inútil e desocupada. Deus, te cansarei em estar viva – me desculpe se meus excessos redobram teus cuidados, mas minha maturidade em enxergar o que vislumbro desde agora faz com eu permaneça sendo a menina dos teus olhos. O que nunca irei considerar é a ideia de morrer antes do tempo. Acinzentar os dias, me trancar em casa, ter medo de arriscar, de me perder. O medo é parente próximo da morte prematura, a morte que existe em vida e não percebemos. Deus, temos um trato: a morte que venha me visitar só quando necessário, e quando vier, que se atrase. E algo mais peço: não deixe que a família e amigos me leiam qualquer coisa, quero ter vivido tanto a ponto de ter consumido todas as palavras das bocas de quem amo. Que a minha vida seja o poema que lerei, muda, para eles em minha despedida.

Cáh Morandi

cabe agora



O que cabe em mim é a tua parte. É a tua mão dormitando entre meus seios. É o teu pão na minha mesa. É o teu corpo em minha cama. É a tua presença preenchendo os dias. Cabe tua palavra que convida para o poema. Teu peso sobre meus músculos. Tua ansiedade em minha calmaria. Tua camisa em meu armário. Cabe substituir a aliança nos dedos. Cabe tua mão entrelaçar a minha. Cabe teu caminho ser a extensão do meu. Cabe despedir os "porques", "pra quês", "poréns". Cabe no meu delírio tua razão. Cabe tua censura em meu vestido. Cabe dividir as contas, o tédio, o mau humor, para aliviar o ruim. Cabe dar-te a novidade, o amor, a generosidade, a primícia do melhor. Cabe ceder-te mais espaço. Cabe dar-te o que em mim é ímpar para ser par contigo. Cabe tua vida na minha. Cabe até tua ausência em minha presença. O que não me cabe mais é a saudade que divide o pensamento contigo. Não me serve mais a distância. Os quilômetros. Os pedágios. Cabe a ideia de que venha morar comigo.

Cáh Morandi

2 de abril de 2015

...



Não darei mérito ao acaso pela chegada do amor, não seria justo simplificá-lo às voltas que a vida deu. Chegamos um para o outro através de um longo caminho de incompetências e acertos. Todos os outros relacionamentos precisaram falhar – não que não fossem bons ou felizes, mas com o tempo havia algo que faltava e ambos não achávamos mais em nós. Tive que mudar de cidade, aprender novas rotas, refazer inúmeras vezes ciclos de amigos e ir conservando o melhor de cada tempo, local, situação. Troquei de emprego, de ramo, fracassei, acertei, trabalhei mais tempo do que dormi. Escolhi um carro novo, coloquei mais quilômetros em minhas histórias. Perdi alguns vôos, remarquei outros. Fui ser estrangeira em outros países, decifrei novas línguas, criei meu próprio dialeto. Passei café mais fortes, requentei pizzas pela manhã. Mudei de hábitos, de âmbitos. Comprei livros que não costumava ler, mas que seriam necessários para um dia trocar idéias com você sobre as teorias que não me interessavam. Tive que optar por coisas que não gostaria, e às vezes fazer coisas sem vontade, por saber que o necessário nem sempre é o agradável. Comecei a fazer feira nos sábados pela manhã e a colecionar sabonetes de hotéis onde me hospedei. Tive chances de fazer loucuras, tive chances de ter razão. Briguei com quem não devia para exercitar com fervor o perdão. Me desprendi do supérfluo, consegui enxergar as coisas além de mim. Passou também o tempo em que eu sabia todas as coisas e voltei a pedir conselhos para meus pais. Durmo menos, preocupada em viver o que tenho direito. Fiz tatuagens, bebi além da conta, não pequei pela falta, nem pelo excesso em minha juventude. Fui a muitos shows, teatros, comprei muitos discos, ampliei meus gostos para saber que não estava errada. Saltei de para-pente, de asa-delta, mergulhei, fiz trilhas por lugares quase inalcançáveis. Tive que estudar mais do que pensei, ter mérito por ser quem sou e assim ser aceita para continuar estudando. Remodelei o futuro diversas vezes, mudei de táticas, estratégias, possibilidades. Amei demais e sofri pelos fins como se a dor nunca fosse passar. Sinto falta de algumas pessoas, as que perdi pelo caminho, mas disso tudo, agora sei que a dor é uma senhora mestra em nos aperfeiçoar. Tenho certeza de quem sou, aprendi a amar minhas marcas e precipícios e já não tenho medo de encarar o passado, e estou destemida se precisar enfrentar um futuro que não cogito. Eu me tornei alguém forte, mas tocável. E estou exatamente aqui, exausta, cansada da estrada, acreditando que aqui você pudesse me ver, me encontrar, me descobrir. Não direi jamais que foi o acaso. Eu te mereço.

Cáh Morandi

1 de abril de 2015

o dia da mentira



Nenhuma mentira é maior do que a mentira no amor. Podemos perdoar um amigo, considerar as razões dos pais, compreender os irmãos. Mas num relacionamento a mentira é como decretar o fim. Mesmo que acertem, que tentem diferente e de novo. A mentira sempre viverá à sombra do casal. Aparecerá no meio de uma discussão meses, se não dias, mais à frente. A mentira do outro sempre será o argumento para condená-lo ou para justificar suas falhas na relação. E vice-e-versa. O problema sempre será maior do que pensamos. Mesmo que o outro nunca mais faça aquilo, andaremos com um pé atrás. Procuraremos sinais que comprovem as palavras antes e depois do encontro com os amigos. A saída sem você será sempre uma dúvida ocupando o pensamento. Ele pode ter mentido sobre como usou o dinheiro guardado, sobre o lugar que foi, com quem esteve, que trajeto fez em sua viagem e não importará quão leve ou profunda seja o que deixou de ser verdade, não há mais segurança nas palavras. Podemos mentir para salvar o amor, não raro, a verdade é a primeira coisa que sacrificamos.

A mentira não começa a existir no dia que nasceu. Ela nasce quando é confessada ou descoberta. Quando você já está dentro dela que nem percebeu. Quando é impossível de remedia-la. Quando você já é cúmplice. Quando não há mais resgate para o amor. O que mais agride não é o porque a mentira foi criada. Recomeçamos os relacionamentos, a confiança não se recomeça. A dor nunca será o que o outro ocultou em suas circunstancias, mas não compreender o porque não eramos dignos da verdade.



Cáh Morandi

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