13 de abril de 2015

duelo



Prefiro ter entre nós o precipício. Antes o salto ao abismo do que se aproximes. Antes que tuas mãos, aparente aveludadas, alcancem meus pêlos. Evito sentir teu falso aroma de quem virá sem causar danos. Sei que há mascaras em ti. Sei que vens, disfarçando, se chamando por outros nomes, vestindo vistosas vestes. Vens sempre antes. Bem antes. Incorporada numa felicidade abrupta, num amor cheio de promessas. Numa tarde serena me iludes, sentada ao meu lado, enquanto confesso as fraquezas que usarás, algum dia, contra mim. Tu vens, pede colo, me dá teus ombros, enches meu futuro de promessas vazias. Às vezes te reconheço pela voz, outras pelo peso do teu corpo. Sei quando mastigas as palavras para confessar o pecado que irás cometer. Serpenteia minhas histórias, se parece com meus antecedentes. Até pareces próxima, parente, irmã de uma vida parecida com a minha – ou tão diferente que é possível cogitar a possibilidade de completarmo-nos. Brinco contigo sabendo quem tu és nas noites mais severas e nas manhãs mais novas. Já sei do doce que começas e no amargo que tu te tornas, e engasgas, atravessada em minha garganta. Não pense que não sei teu nome. Não pense que não sei que sempre estás à beira. Um passo. Um suspiro da minha nuca. Foge de mim, pois ainda não duvide que te venço. Ah, dor: quem de nós será nosso tormento?
Cáh Morandi

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