9 de dezembro de 2015

da palma da tua mão
que em centímetros
respira a pele de
meu peito, pairando
o fôlego sobre a palavra
ainda não nascida, e geme
basta encostar minha vida
mais perto da tua alma
para o milagre nascer, amor

Cáh Morandi

12 de novembro de 2015

...

O meu coração é um pouco embrutecido. Um pouco duro. Repleto de marcas. E cansado, muito cansado de tentativas. E mesmo no campo de todas as impossibilidades em que me encontro para amar, uma pequena frase, um gesto gentil, mesmo depois de seguidos "nãos", encontra o pequeno e estreito caminho para me desestruturar: "quero te dar o que posso: a certeza do outro dia."

Cáh Morandi

14 de outubro de 2015

I know the names and locations
of all earthquakes if he looks at me
my nonexistent structures -
I want to fall in the middle of his embrace -
I do not know what's between us
Or is it precisely what it is not

take away from me my yes,
it's not just you,
I wanted this long before

Cáh Morandi

26 de agosto de 2015

I found it, for sure
we always know
when it is
still I don't know
how to say it
confessing your love
can mean
losing it


Cáh Morandi

23 de agosto de 2015

Leitura de Poema, do livro "Internidades"

sempre será teu nome
a me aproximar da 
saudade; sempre a
primeira luz da manhã 
me salvará a lágrima 
de orvalho; sempre será 
quem despertas nas
noites que faço em mim



                        // sempre meu nome                                      
                       madrugando em tua boca. 

18 de agosto de 2015

a vida que me aconteceu
foi ainda há pouco; ali,
passado e passageira;


           // foi ontem e amanheceu.

Cáh Morandi

5 de agosto de 2015

Encontro em São Paulo

Registro minha admiração e reafirmo meu compromisso na construção do caminho para a futura literatura, onde me manterei fiel à poesia. Aprender a ser coração. Transformar-se em palavras. Alegria e gratidão em saber que as mãos estão dadas! Obrigada!

Foto: Guilherme Antunes, Moreno Pessoa e Cáh Morandi.



Sabe quando éramos crianças e brincávamos de esconde-esconde? Acreditávamos que estávamos escondidos ao tampar os olhos? Mas o mundo continua girando, trazendo possibilidades infinitas e percebemos que nem só de beleza são feitos os caminhos. Única certeza é que tudo muda. E nada deixa de existir porque não queremos ver.

Cáh Morandi

30 de julho de 2015


desconfio do raio de
fina luz que me beija
a face; confio mais
na terra que vem
me escurecendo os
pés; a claridade
vem pra ofuscar
os olhos; caminhando
vou desfazendo os
caminhos

Cáh Morandi

28 de julho de 2015

possível nada


é possível ser 
mais falta do que
presença? ser não 
o que fica, mas o
que sobra? ser a
poeira, a migalha
à beira da mesa,
o gole que fica
no copo, o corpo
desabitado da alma;
ser próximo a nada
e ainda sentir muito?


Cáh Morandi

27 de julho de 2015

Encontro / São Paulo / 02 de agosto

Para quem quiser trocar idéias e conversar sobre literatura, Cáh Morandi,Guilherme Antunes e Moreno Pessoa estarão reunidos no Café Santo Grão, da Oscar Freire em Sampa (SP), no dia 02/08, às 14h30min.

Esperamos vocês por lá!

Páginas oficiais:
https://www.facebook.com/cah.morandi
https://www.facebook.com/arkhipelago
https://www.facebook.com/oquevemdedentro


O link pra o evento no facebook está aqui!

15 de julho de 2015

se tu me fazes falta?
que ironia! é só olhar
o vazio da casa, essa
ausência em mim
de poesia, essa secura,
essa amargura em
demasia; todos os
excessos cometidos
são as faltas nesses
meus dias.

Cáh Morandi

14 de julho de 2015

nadas



voltar atrás, engolir 
a palavra dita, o pedido
feito, deixar a roupa
suja, ter dito sim, ponderar
o não. Ao menos rever
as escolhas, relembrar
que havia caminhos, e pedras
nas quais fiquei. Nada
nos devolve ao momento
que nos atormenta. Nada também
nos tira de lá.


Cáh Morandi

13 de julho de 2015



O tempo abre em nós o
peso da inconstância; sempre
novo, repetindo sempre as
perguntas e embaralhando as
respostas. Digo de onde venho, 
mas confio a história ao que
logo ali, virá. Tempo. Pela fresta 
que te vejo és sempre tão pequeno
para dolorir, tão grande para
me diluir.



Cáh Morandi

12 de julho de 2015

A. A.

De todos os amores, dos intensos aos mais calmos, dos duradouros aos mais rápidos, dos de cama aos de planos de vida. De todos, todos os que vivi, só ficou o seu. Que me visita em tardes como essas, no litoral de uma saudade que não sabe ser preenchida. Temos todos os anos entre nós. Temos as palavras ditas e as que não tivemos coragem de dizer. Temos os erros. Eu tenho o peso da culpa, você tem a leveza das lágrimas. Tatuei você sobre e sob a pele. Não importa tudo que veio depois, tudo que construí tentando me separar de nós, fui sempre sua. Guardo minha aliança, os sonhos e um pedido de perdão que você não pode me dar.
São 7 anos em que vivo uma eternidade.

Cáh Morandi

3 de julho de 2015


Não, dessa vez o amor não perdoará. Não terei a chance de pedir desculpas, de fazer o que é certo. Você não encontrará nessas palavras o meu pedido de perdão e não espalharei por aí meu arrependimento. Sou extremamente hábil em ser incompetente quando estou à frente do que quero, sou insuficiente quando deveria ser exata, perco os argumentos quando brigo e quando posso confessar tudo que penso, esqueço o que decorei para dizer ao pé do ouvido. Sou esse medo, sou essa paralisia, essa inconstância. A minha vida está sempre com um nó na garganta. Estou sempre quase, e isto é meu melhor por enquanto.
Se fosse possível, você poderia me esperar?

Cáh Morandi

30 de junho de 2015

há algo em ser tua
que me devolve, mas
mais lapidada, cristalina e
transparente
me vejo com teus olhos
e sei que não sou
como me vês, mas
saber como enxergas
me faz viver o amor
ante mesmo de
compreendê-lo
tu me significas

Cáh Morandi
Sou frágil, amor.
Por trás das palavras
sou só silêncio; por trás
da armadura sou só
desejo; por trás da negação
sou amor, confesso. Me
toma do que penso.
Tua palavra será
meu destino.

Cáh Morandi

21 de junho de 2015


Gosto dos teus lábios. Ainda mais se eles estão nos meus. Muito mais quando se tornam nômades em meu corpo. Gosto do sabor que há em tua carne, da medida em que ferves as emoções em teu sangue para brindar-me com o encontro. Gosto quando demoras em deixar-me, quando postergas retirar teu peso sob. Gosto quando comigo se excede, quando transbordas em minha companhia, quando divides a luz e depois entardeces ao meu lado, quando sonhas acordado para contrariar meus sentidos.

Cáh Morandi

16 de abril de 2015

para os íntimos



Sinto intimidade com quem me permite o silêncio – mesmo quando as palavras poderiam ser necessárias. Quem compreende a ausência da fala inclina a cabeça em prece e também ora. Permito-me, que às vezes, o pensamento seja mais lento, que dentro de mim, se contorça, se exprima e se dilua sem alcançar minha voz. Sentir é isso: a pausa na música para o suspiro. Sentir é isso: o espaço que a terra espera para receber a próxima gota de chuva. Sentir é isso: o segundo que a pálpebra se fecha para abraçar os olhos. Sentir é isso: descobrir qual flor abriu primeiro a primavera. Não há tempo perdido na ausência, somente na falta. Ausência é ainda estar. Falta é já ter partido. Gosto de quem permite ausentar-me. Que não interrompe meu êxtase em mim. De quem não pede a escrita. Só quem nos conhece bem próximo é capaz de saber nosso silêncio e lê-lo. O silêncio é língua da intimidade.

Cáh Morandi
nunca quero saciar,
nem transbordar,
nem cansar,
nem encontrar sossego:
quero em ti, sempre encontrar
uma falta, um vazio de gestos,
uma palavra perdida, uma ausência
para que eu nunca seja
plena e completa
para que eu nunca
me encontre suficiente
que eu te ame mais
do que te ame:
que haja em mim
a incontrolável
necessidade.


Cáh Morandi

15 de abril de 2015

para quem ouvir



Empresto meu tempo à ouvir quem tem mais estradas do que eu. Não é desgastar o ouvido quando a palavra vem carregada do peso das suas histórias. Não é dispensar o que aprendi e vivi, mas reconhecer que há belezas que só quem atravessa o tempo conhece. Meu avó soube envelhecer, herdo dele os traços do rosto e a palavra bruta – que no fundo é poesia para quem sabe entender. Suas mãos calejadas dos arados dos anos e das cidades à que foi predestinado, assinam o livro de quem viveu demais para perder tempo escrevendo (estas minhas palavras são seu prefácio). Essa rudez que levemente se estampa sobre a falta de vocabulário, se esmaece ao som da sua voz. De tudo que aprendi com ele, não esperei saber do amor. Não esperei que ele me traria o sentido de tudo que já li e escrevi. Conhecimento só tem valor se é passado adiante, assim transcrevo as suas palavras, sob o olhar de minha avó: “Espero que você tenha a nossa sorte, de ter alguém que vai passar a vida com você. Porque hoje, com mais de 50 anos de casados, a melhor coisa que você tem na velhice é poder contar as mesmas histórias juntos”. Calei. Silenciei. Nenhuma palavra pode contestar o amor, principalmente diante de alguém que o viveu.

Cáh Morandi

14 de abril de 2015

sobre a poesia

Sou uma mulher de muitos livros
Incontáveis poemas me deixei, noutros fiquei por dias
Tardei em contar alguns causos, me precipite em viver o que podia
Me dei o direito de esquecer o discurso
De perder a caneta, de calejar o pulso
A poesia me tornou madura,
Mas me colheu ainda na palavra antiga,
Meu arado foi trabalhar cada letra
Desconstruir a escrita
Semear sem esperar a rima
O meu ofício sempre foi outro:
O outro.

Cáh Morandi

13 de abril de 2015

duelo



Prefiro ter entre nós o precipício. Antes o salto ao abismo do que se aproximes. Antes que tuas mãos, aparente aveludadas, alcancem meus pêlos. Evito sentir teu falso aroma de quem virá sem causar danos. Sei que há mascaras em ti. Sei que vens, disfarçando, se chamando por outros nomes, vestindo vistosas vestes. Vens sempre antes. Bem antes. Incorporada numa felicidade abrupta, num amor cheio de promessas. Numa tarde serena me iludes, sentada ao meu lado, enquanto confesso as fraquezas que usarás, algum dia, contra mim. Tu vens, pede colo, me dá teus ombros, enches meu futuro de promessas vazias. Às vezes te reconheço pela voz, outras pelo peso do teu corpo. Sei quando mastigas as palavras para confessar o pecado que irás cometer. Serpenteia minhas histórias, se parece com meus antecedentes. Até pareces próxima, parente, irmã de uma vida parecida com a minha – ou tão diferente que é possível cogitar a possibilidade de completarmo-nos. Brinco contigo sabendo quem tu és nas noites mais severas e nas manhãs mais novas. Já sei do doce que começas e no amargo que tu te tornas, e engasgas, atravessada em minha garganta. Não pense que não sei teu nome. Não pense que não sei que sempre estás à beira. Um passo. Um suspiro da minha nuca. Foge de mim, pois ainda não duvide que te venço. Ah, dor: quem de nós será nosso tormento?
Cáh Morandi

9 de abril de 2015



a minha resistência
é forçada a ceder
com a leveza que 
tuas mãos me guiam -
teus dedos firmes em

minha cintura me dando
a direção e a velocidade
com que perco os sentidos
- estou em alvoroço, e sei
que o amor está prestes
a me vencer

meu vestido no chão:
minha bandeira de paz
está estendida

Cáh Morandi

6 de abril de 2015

sorteio



Sabe o que tá rolando lá na fanpage? Um sorteio do meu livro, e custa só o tempo de clicar em "participar". Vem? Basta clicar aqui! :)

3 de abril de 2015

acordo com a vida




Deus, te agradeço pela morte, a certeza do fim adia a pressa da felicidade. Não olharei para a morte insatisfeita por sua chegada, espero apenas que ela não me surpreenda mais cedo do que imagino. Saber que ela chegará, me faz viver o minuto que tenho intensamente, dizendo mais sim para as aventuras, mais não para o que amarga os dias. Pensar que posso desaparecer me faz não negar mais amor e gentilezas, e ao fazer isso, descubro que são coisas que quanto mais dou, mais tenho parar dar – e principalmente, sobreviverão no outro apesar de mim, apesar da presença. Não penso que a morte é um limite, um ponto final, é apenas um alarme de que é preciso ter urgência em descobrir quem se é, ou se descobrimos cedo demais, reinventarmo-nos, evoluirmos. Serei egoísta com o tempo: até o último segundo, aquela última vez em que eu trazer ar para meus pulmões, não darei à ele a trégua de ser achada inútil e desocupada. Deus, te cansarei em estar viva – me desculpe se meus excessos redobram teus cuidados, mas minha maturidade em enxergar o que vislumbro desde agora faz com eu permaneça sendo a menina dos teus olhos. O que nunca irei considerar é a ideia de morrer antes do tempo. Acinzentar os dias, me trancar em casa, ter medo de arriscar, de me perder. O medo é parente próximo da morte prematura, a morte que existe em vida e não percebemos. Deus, temos um trato: a morte que venha me visitar só quando necessário, e quando vier, que se atrase. E algo mais peço: não deixe que a família e amigos me leiam qualquer coisa, quero ter vivido tanto a ponto de ter consumido todas as palavras das bocas de quem amo. Que a minha vida seja o poema que lerei, muda, para eles em minha despedida.

Cáh Morandi

cabe agora



O que cabe em mim é a tua parte. É a tua mão dormitando entre meus seios. É o teu pão na minha mesa. É o teu corpo em minha cama. É a tua presença preenchendo os dias. Cabe tua palavra que convida para o poema. Teu peso sobre meus músculos. Tua ansiedade em minha calmaria. Tua camisa em meu armário. Cabe substituir a aliança nos dedos. Cabe tua mão entrelaçar a minha. Cabe teu caminho ser a extensão do meu. Cabe despedir os "porques", "pra quês", "poréns". Cabe no meu delírio tua razão. Cabe tua censura em meu vestido. Cabe dividir as contas, o tédio, o mau humor, para aliviar o ruim. Cabe dar-te a novidade, o amor, a generosidade, a primícia do melhor. Cabe ceder-te mais espaço. Cabe dar-te o que em mim é ímpar para ser par contigo. Cabe tua vida na minha. Cabe até tua ausência em minha presença. O que não me cabe mais é a saudade que divide o pensamento contigo. Não me serve mais a distância. Os quilômetros. Os pedágios. Cabe a ideia de que venha morar comigo.

Cáh Morandi

2 de abril de 2015

...



Não darei mérito ao acaso pela chegada do amor, não seria justo simplificá-lo às voltas que a vida deu. Chegamos um para o outro através de um longo caminho de incompetências e acertos. Todos os outros relacionamentos precisaram falhar – não que não fossem bons ou felizes, mas com o tempo havia algo que faltava e ambos não achávamos mais em nós. Tive que mudar de cidade, aprender novas rotas, refazer inúmeras vezes ciclos de amigos e ir conservando o melhor de cada tempo, local, situação. Troquei de emprego, de ramo, fracassei, acertei, trabalhei mais tempo do que dormi. Escolhi um carro novo, coloquei mais quilômetros em minhas histórias. Perdi alguns vôos, remarquei outros. Fui ser estrangeira em outros países, decifrei novas línguas, criei meu próprio dialeto. Passei café mais fortes, requentei pizzas pela manhã. Mudei de hábitos, de âmbitos. Comprei livros que não costumava ler, mas que seriam necessários para um dia trocar idéias com você sobre as teorias que não me interessavam. Tive que optar por coisas que não gostaria, e às vezes fazer coisas sem vontade, por saber que o necessário nem sempre é o agradável. Comecei a fazer feira nos sábados pela manhã e a colecionar sabonetes de hotéis onde me hospedei. Tive chances de fazer loucuras, tive chances de ter razão. Briguei com quem não devia para exercitar com fervor o perdão. Me desprendi do supérfluo, consegui enxergar as coisas além de mim. Passou também o tempo em que eu sabia todas as coisas e voltei a pedir conselhos para meus pais. Durmo menos, preocupada em viver o que tenho direito. Fiz tatuagens, bebi além da conta, não pequei pela falta, nem pelo excesso em minha juventude. Fui a muitos shows, teatros, comprei muitos discos, ampliei meus gostos para saber que não estava errada. Saltei de para-pente, de asa-delta, mergulhei, fiz trilhas por lugares quase inalcançáveis. Tive que estudar mais do que pensei, ter mérito por ser quem sou e assim ser aceita para continuar estudando. Remodelei o futuro diversas vezes, mudei de táticas, estratégias, possibilidades. Amei demais e sofri pelos fins como se a dor nunca fosse passar. Sinto falta de algumas pessoas, as que perdi pelo caminho, mas disso tudo, agora sei que a dor é uma senhora mestra em nos aperfeiçoar. Tenho certeza de quem sou, aprendi a amar minhas marcas e precipícios e já não tenho medo de encarar o passado, e estou destemida se precisar enfrentar um futuro que não cogito. Eu me tornei alguém forte, mas tocável. E estou exatamente aqui, exausta, cansada da estrada, acreditando que aqui você pudesse me ver, me encontrar, me descobrir. Não direi jamais que foi o acaso. Eu te mereço.

Cáh Morandi

1 de abril de 2015

o dia da mentira



Nenhuma mentira é maior do que a mentira no amor. Podemos perdoar um amigo, considerar as razões dos pais, compreender os irmãos. Mas num relacionamento a mentira é como decretar o fim. Mesmo que acertem, que tentem diferente e de novo. A mentira sempre viverá à sombra do casal. Aparecerá no meio de uma discussão meses, se não dias, mais à frente. A mentira do outro sempre será o argumento para condená-lo ou para justificar suas falhas na relação. E vice-e-versa. O problema sempre será maior do que pensamos. Mesmo que o outro nunca mais faça aquilo, andaremos com um pé atrás. Procuraremos sinais que comprovem as palavras antes e depois do encontro com os amigos. A saída sem você será sempre uma dúvida ocupando o pensamento. Ele pode ter mentido sobre como usou o dinheiro guardado, sobre o lugar que foi, com quem esteve, que trajeto fez em sua viagem e não importará quão leve ou profunda seja o que deixou de ser verdade, não há mais segurança nas palavras. Podemos mentir para salvar o amor, não raro, a verdade é a primeira coisa que sacrificamos.

A mentira não começa a existir no dia que nasceu. Ela nasce quando é confessada ou descoberta. Quando você já está dentro dela que nem percebeu. Quando é impossível de remedia-la. Quando você já é cúmplice. Quando não há mais resgate para o amor. O que mais agride não é o porque a mentira foi criada. Recomeçamos os relacionamentos, a confiança não se recomeça. A dor nunca será o que o outro ocultou em suas circunstancias, mas não compreender o porque não eramos dignos da verdade.



Cáh Morandi

27 de março de 2015

Espero um amor



Não espero um amor que me complete. Sou inteira em mim. Espero um amor que me ajude a olhar para as coisas que não consegui por limitar a retina. Espero um amor que entre em minha casa, abra as cortinas, mude meus móveis e me faça habitar em minhas raízes produzindo outros frutos. Espero um amor que me apresse em minha demora em levantar aos domingos e que me desacelere para dormir durante a semana. Espero um amor que não mude minha crença, mas que aumente minha fé. Espero um amor que contradiga os ditados, a rotina, os limites. Espero um amor que não me compre livros, mas que escreva comigo, em vida, uma poesia sem ser decorada. Espero um amor que não me queira rasa e comum, mas que ajude a cavar em mim o que tenho receio de conhecer. Espero um amor que me traga perigo e frio na barriga, que me dê o nervosismo de quem ainda está se apaixonando. Espero um amor que não prometa envelhecer ao meu lado, mas de sermos jovens até o fim das nossas vidas. Espero um amor que não me prive da liberdade de ficar em silêncio. Espero um amor que me irrite, me torture, me tire do sério para que eu não seja sempre um mar sem ondas. Espero um amor que me admire por tudo que sou e por tudo que não escolhi ser. Espero um amor não me ensine o caminho do destino, mas que me diga que é possível desaprender o que esperam de nós. Espero um amor que me ajude a construir a felicidade, mas que também me faça doar os ombros para as tristezas. Espero um amor que ame minha inutilidade, meu cansaço, meus desastres, meus fracassos, minhas angustias – alguém que respeite o que em mim não é bom, produtivo, admirável ou útil. Espero um amor que tenha gosto por viagens, mas que saiba voltar. Espero um amor que perde o horário, que demore para ler o cardápio, que respeite as pessoas não só pelos seus nomes. Espero um amor que tenha demora em me despir e memória para me vestir. Espero um amor que saiba meu tempo e não me diga para apressar ou demorar os passos. Espero um amor que saiba o valor dos filhos que teremos ou não. Espero um amor que honre seus pais, que sente falta dos seus avós. Espero um amor que conte suas diversas histórias com o entusiasmo de quem tem uma novidade escondida no bolso. Espero um amor que respeite o caminho que percorri, que não faça descaso da minha dor. Espero um amor que leia os jornais para mim e diga que será um dia de sol sem consultar a previsão. Espero um amor que deite ao meu lado, que envolva seus braços sobre mim e que saiba embalar até adormecer os medos que não conto. Espero um amor que me dê um novo sobrenome. Não espero um amor que me complete, mas que me estenda.

Cáh Morandi

26 de março de 2015




A certeza de quando perdemos a intimidade de um amor: provocar uma conversa qualquer para desafogar o silêncio. E pensar que o fim foi o excesso de palavras.

Cáh Morandi

24 de março de 2015

ao passado


Não sou condenada pelo futuro, somente o passado poderia colocar em mim suas algemas. Acontece que nunca fui de me culpar, de me torturar por mal algum que tenha feito - porque se fiz, fiz sem querer. Falhei em todos os relacionamentos anteriores. Sim, todos. Se perguntarem aos que me amaram, ou a quem amei, certamente haverá uma lista de coisas que dirão sobre mim. A intensidade me fez uma mulher urgente e até aqui vivi paixão e amor em alta tensidade. Sei que avassalei alguns corações simplesmente por ser eu. Passei rápido demais por algumas vidas - e em algum caso, não fui embora por querer, mas por medo de que poderia justamente achar sossego. Meus sentimentos à quem magoei, à quem disse algo de forma bruta, à quem respondi com um silêncio torturador. Paixões, me desculpem. Amor, me perdoe.

Cáh Morandi

20 de março de 2015

Socorro




Fui atropelada.

Faz um certo tempo.
O Amor veio desgovernado, perdeu o freio, foi tão repentinamente, que ninguém por perto notou, gritou um alto: "-Corre!". Não deu tempo. Deu de frente com meu peito, meu coração parou por alguns segundos, a respiração ficou mais ofegante.
Lançada para o mais longe que podia de toda minha consciência, na inconsciência ouvia o Amor dizer baixinho: "-Calma, dará tudo certo!". Ali, estirada, dolorida, sofrendo, sem saber se em mim existia a alegria em ter ainda um resto de vida ou agonia em perceber que a morte estragaria o pacto com a eternidade, pensava em quanto tempo demoraria o socorro. Para onde me levariam? Quem me ajudaria a ter coragem de abrir novamente os olhos? Que remédio viria para curar das feridas expostas ou não? Quando estancariam este sangue fervido que encontrava caminho para fora de mim? 
A vida não mais foi a mesma, ganhou a profundidade de quem a reconhece mais forte do que supunha e por ela foi nocauteada. Havia mais do que a surpresa do embate do Amor: o Amor era o próprio resgate. Mas o ar ainda faz falta certas vezes.


Cáh Morandi

16 de março de 2015

gota



a dor em mim dilacerante
nenhum instante é possível
você sentir, nem queira
essa sensação traiçoeira
que parecia, bem antes,

a alegria do amor


apenas respeite este instante
se minha ferida gritar latejante
não terei voz, mas esse poema
é minha gota de sangue

Cáh Morandi

3 de março de 2015

Por muito tempo havia fechado o coração para o amor. Amor daqueles dos bons, sabe? Daqueles que tomam nosso pensamento, que trazem um sorriso discreto enquanto você espera na fila do trânsito, daquele que você tem até uma música para referenciar. Amor que dá vontade de até replanejar a vida, mudar de cidade, mudar de estilo, substituir os planos por decisões momentâneas. Amor que faz você esquecer a panela no fogo, o óculos no banheiro, a água das plantas. Amor que te desperta para o que nunca viu ou teve tempo: novos livros, a decoração do quarto, começar um jardim, conversar mais tempo com nossos vizinhos. Amor que só por existir faz com que nos sintamos incrivelmente capazes de sermos felizes, considerando até as impossibilidades e incertezas. Estou me abrindo de novo, quero a chance de uma nova felicidade, mesmo que se façam novas cicatrizes. Que as minhas marcas sejam de amor.

Cáh Morandi

1 de março de 2015

transcender-se
em ser além do que se é - ou vê
a parte do outro
a partir de você
anteceder sobre o que já foi
não escolher os perfumes:
significar os aromas

Cáh Morandi

28 de fevereiro de 2015

você me deixou
em estado de febre
não há o que em
mim não arda
ou incendeie e
fere
sou a própria
chama, não assopre,
se queime

Cáh Morandi

22 de fevereiro de 2015

Quanto tempo já partimos do território do nós? Andamos, andamos, andamos, mas permanecemos perto de alguma lembrança mútua de um passado impassável. O amor nos fez nômades. Nenhum corpo nos completa, nenhum abraço nos completa. Não houve madrugadas como as nossas, os dias não amanhecem como eram de costume. Uma estranheza preenche as horas não preenchidas dos compromissos da rotina. Mas apesar da distância do amor, ainda sorrimos, brindamos os amigos, celebramos as boas novas. Tem sido possível viver. A vida está aparentemente completa. Aparentemente.

Cáh Morandi

8 de fevereiro de 2015


Mais do que nunca fazes falta. Não só comigo, mas em mim e na vida que levo de arrasto. Dedico-me à rotina, trabalho e pouco durmo - a insônia ocupa as horas que eram nossas. Tenho tentado me distrair, sair, provar para mim e para ti que foi possível seguir sem que a dor tenha nos dilacerado. Sabes, sou boa nas coisas que invento. E tenho tentando inventar um mundo em que não existas - mas que mundo seria possível sem que lá estejas, mesmo com todas as distâncias de mim? 

Não sei por onde andas, em que pensas, que escolhas fazes. Não sei se a minha falta te dilacera como a tua faz em mim. Mas minha parte faço: confesso. Neste momento quero-te mais do que amo-te. Porque tu me é uma necessidade. 


Cáh Morandi

4 de fevereiro de 2015

Eu nunca serei o que você quer. Sempre serei o que eu decidir ser e mais - nunca me defino, porque quando quiser mudo, me reinvento. Você não tem noção de quantos recomeços eu precisei para não ir até o final. E sou isso, sou do gênero da inconstância, vizinha da mudança, próxima da inovação. Desculpe se não sou o que você resume ou pretende e não me leve a mal: amo minha versão original. Não serei rascunho, nem você me passará a limpo. Se quiser, vem comigo correr perigo, amanhecer e ser sempre novo e outro, descobrir o gosto de desaprender quem dizem que somos.

Cáh Morandi

14 de janeiro de 2015

Depois

O amor chegou depois, quase no fim da esperança. O amor chegou quando não sobraram mais individualidades, quando abri meu peito ao mundo e disse: "entre". O amor chegou quando as emoções penetraram no meu intimo e desnudaram minha alma. O amor chegou quando meus olhos passaram a ver além do tangível e sentiram o precipício por trás de outras retinas. O amor chegou depois que compreendi a rotina, aceitei a falta de sono, aprendi a ter paciência com as crianças. O amor chegou quando eu comecei a me despertar para as flores e compreender que um jardim é válido se meus vizinhos podem vê-lo. O amor chegou quando deixei o riso ser agudo. O amor chegou quando aumentei o volume na minha música predileta - e dancei. O amor chegou quando esqueci de colocar o pijama para dormir e apaguei no sofá, distraída em governar meus próprios limites. O amor chegou quando eu passava um café sem pressa numa manhã longa de domingo. O amor chegou depois que não me culpei por perder horários. O amor chegou junto com a desordem, me ensinando a desaprender para aprendê-lo. O amor chegou quando tudo em mim havia sofrido partida. O amor não chega quando ainda temos razão.

Cáh Morandi

9 de janeiro de 2015

Eu estou com medo, eu estou morrendo de medo. Eu queria que você me conhecesse um pouco mais para saber que toda essa frieza, é na verdade, simples e puro medo. Medo de dizer que te amo. Medo de dizer que penso em você a cada minuto do dia. Medo de te ligar e me confessar. Medo de saber que você está amando outra pessoa. Medo de ter que te olhar novamente e agir naturalmente, quando estou no desespero de te beijar. Medo de encostar minha mão na tua e relembrar os teus dedos por toda minha pele. Medo de ir nos mesmo lugares que fomos juntos e reviver o som do tua risada. Medo de abrir meus emails. Medo de perder uma ligação tua. Medo de abrir os livros que lemos juntos, porque sei que ainda ouvirei tua voz sendo pausada pelos suspiros. Medo de comprar manteiga aviação porque ela tem o gosto que gosta o teu paladar. Medo das músicas que ninguém ouve, porque só nós dois sentimos. Medo de não saber o que fazer com o que eu sinto. Medo de ser agir ridiculamente por amor. Medo de ter você. Medo de te perder. Não agir, estremecida de medo, não te tira e nem te traz para mim. Medo de saber tua resposta. Medo de não ser tua resposta. Me perdoe por esta ausência, pela forma dura com quem finjo que você não existe. No fundo, é só amor. Um amor repleto de medo de existir.

Cáh Morandi

8 de janeiro de 2015

Amo cada uma das nossas lembranças, nenhuma delas irei substituir por um amor do futuro. Gosto da forma que você leva a vida e tenho um extremo desgosto pelo jeito que dei de continuar caminhando. Penso em te ligar certas noites, como hoje, como agora, e confessar que a falta que você me faz me ataca insuportavelmente e que desconfio que talvez te ame, mesmo agindo como se não. Mesmo nunca te dizendo. Mesmo sendo eu a analfabeta sentimental que colocou um ponto final em um possível amor-para-a-vida-inteira. Me perdoe pela falta de jeito, pela falta de carinho, pela falta de presença, pela falta de doação, pela falta de verdade, pela falta. Pelos danos. Pelos desastres. Pela insuficiência de ser o que você merecia. Pela covardia em não te amar com a mesma coragem que deixei. Perdoe pela chegada sem aviso, pela saída prematura. Perdoe pelos beijos menos intensos, pelo sono no meio da tarde de domingo, por colocar um despertador para todo sonho. Me perdoe porque não sou fiel a poesia que escrevo. Não sou essas palavras. Mas o que restou de mim ainda é o que é seu. Fui embora em você. Preciso ir me buscar.

Cáh Morandi

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