28 de junho de 2013

Quase nós


Caminho exaustivamente pelos dias, atravesso a agonia da rotina, sacrifico o limite, estendo os horários. Percorro os dias e conto as semanas, agora o tempo é quase pouco. Avisto um bom porto para descansar da viagem, ancoro. Do céu aberto identifico a árvore, o galho e seu ramo, recolherei as asas. A distância do meu colo deitado em teu ombro diminui. O teu cheiro já alerta tua chegada. A realidade se despede para nos dar o sonho. Amarei fortemente, pois a força é meu descanso. Meu corpo ocupará o seu no mesmo lugar do espaço, sem física que nos explique. Juntos nada nos justifica ou questiona, dispensamos as palavras, importa os lábios. Quase estamos em paz.


Cáh Morandi

27 de junho de 2013

reflexo




paraliso em frente ao espelho:
me vejo com teus olhos,
vagarosamente me visto
com tuas mãos imprecisas,
jogo o cabelo para o lado
com o impulso do teu ar,
meu reflexo é sua imagem,
minhas curvas as estradas
que percorremos nos beijos -
únicos e difusos, nada mais
nos separa e diferencia,
meu amor-próprio é você



Cáh Morandi

26 de junho de 2013

seja


Não espere de mim o apelo ou o pedido, porque ao contrário da pergunta, sou a resposta. Já estive do outro lado e não quero mais. Quero que venha porque quer vir. Quero que fique porque quer ficar. Se você se despedir, quero a dor da certeza que quis se despedir. Não somos mais os jovens de outra hora. Há quanto tempo já desacreditamos do amor? Sobreviveremos a esta verdade. Suportaremos o fato de sermos de outros, mesmo sendo nossos. Descartaremos as hipóteses e as poesias. Verei algum pôr-do-sol e desconfiarei ser uma indireta tua atravessando o tempo. Meias palavras. Por que você nunca foi completo?

Cáh Morandi

25 de junho de 2013

escrevo-me



Se uma notícia ruim me atravessar não me prenderei a ela. Hoje preciso ver além da chuva, hoje preciso sentir além do frio, só assim não me recolherei. Recomponho a dor de me perder para o acaso, isto que toma de surpresa pelo caminho e desmorona as esperanças. Agora adio a felicidade sem pressa de possuí-la, para quer ter nas mãos algo que pesa bem mais do que alivia? Esqueço o nome do filho que não tive, lembro das viagens que fiquei por fazer, me divirto pensando nas noites que não dancei. Meu corpo corrompe com o trato de irmos até o fim, não envelheceremos só para não perder a memória. Começo a morrer para a vida ser mais intensa. Se duvidarmos do amanhã, o hoje não poupará na plenitude. Escrevo minha história para não publicá-la, quero ser uma carta que ficou por ser enviada.

Cáh Morandi

23 de junho de 2013

poesia de domingo


Poesia é cada manhã de domingo, é despertar do sonho na segurança do abraço, é alvorecer dentro da preguiça das horas, é tardar nos planos, é transferir a fome para matar a sede, é comprometer o juízo pelos lençóis, é demorar na respiração para se reconhecer no cheiro do corpo amanhecido, é recontar os arrepios da pele para se perder no calafrio, é adoçar o beijo ainda nos próprios lábios, é abrir os olhos para cerrar os cílios da alma, é não ter pressa de se reconhecer para ser anônimo na dor, é buscar o livro da cabeceira para redecorar o vocabulário, é adiar o movimento para estremecer na permanência, é procurar as costas debaixo das cobertas para deitar o toque. Poesia é sempre um domingo, é sempre esta manhã em que posso escolher as palavras. Tua voz penetra calmamente meus ouvidos e me convida para namorar o dia. Hoje só serei encontrada no amor.

Cáh Morandi

20 de junho de 2013

para a liberdade




se o tempo passar
deixe apenas
que passe

no tempo não
há alianças
nem algemas,
nele se anulam
as promessas

há este segredo:
não nascemos para um amor,
morreremos pela liberdade.


Cáh Morandi

19 de junho de 2013

líquida

escorro só para
não perder a gota,
recolho a saliva
para inundar o gosto -
líquida, provoco a sede
evaporando para voltar
na próxima chuva
para ti,
acalmo as ondas -
não quero ser
um rio, que passa:
quero ser foz,
que verte

Cáh Morandi

18 de junho de 2013

bem agora



calma, me acalma
nos próximos segundos

você chegou repleto
de palavras guardadas
sufocadas em você
eu só não esperava, 
bem agora, esta
novidade:

um convite, no meio
da minha liberdade,
pra me prender a você

o que eu esperava
na hora errada
de acontecer


Cáh Morandi

14 de junho de 2013

dureza


Não sei bem certo quando amadureci demais para o amor. Me separei do poema, como águas de cores diferentes. Nos repartimos para nos multiplicar. Deixei o carinho nas palavras, levei a dureza para os dias. Uso a razão para não mais me ferir. Endureci não por falta de amar, mas por excesso. Nunca medi o tamanho do beijo, antes da paixão eu já cedia na entrega. Não mais, por agora. Uma serenidade me convidou ao descanso. Somente espero sem subornar a expectativa. Nem sempre a espera tem recompensa. Ela apenas favorece o tempo. E o tempo, traz cura. Hoje quero apenas companhia, uma mão pousada sobre a minha até o próximo domingo. Uma vida sem crer no amor é tão cruel como a morte. Por enquanto, adormeço.

Cáh Morandi

para não dizer


não decepciono no amor
falho apenas na correspondência:
imóvel, não sou de grandes gestos
falo pouco, sou tímida na voz
desvio o olhar para negar
tenho medo de confessar
teu nome, secreto -
para não dizer,
te escrevo poemas

Cáh Morandi

12 de junho de 2013

aqui em mim


demorei para reparar
que você havia chegado
em mim

te descubro entre
as coisas boas e melhores
morando em meu peito

não do lado esquerdo,
mas estranhamente direito:
precisei de um novo coração
para te receber


Cáh Morandi

11 de junho de 2013

descuido


Perdi antes mesmo de ser derrotada pelo amor. Ao contrário de tudo que espero, inverso ao meu desejo mais secreto, você está. Não me oferece futuro, não aliança nossas mãos para um sempre. Me deixa para depois, fico estagnada na dúvida, sem avanço ou recuo. Cedo para ele ficar um pouco mais. Guardo a expectativa para correspondê-lo no agora. Não precipito para continuar no beijo. Enquanto posso, enlaço meus dedos nos dele, troco nossas digitais para a eternidade. Deixo ele ficar no meu corpo pelo tempo que queira e não pelo que desejo, tardo no suor. Não digo que o amo, embora. Não mostro que o quero, porém. Engano-me no amor para não sofrer a despedida.

Cáh Morandi

10 de junho de 2013

isto


isto que paira
entre o nosso olhar,
isto que morde
os lábios da nossa boca,
isto que arrepia
nossos pêlos e peles

isto que disfarçamos,
que negamos com um sorriso,
que escapamos com o alívio
de não nos entregar

Cáh Morandi

7 de junho de 2013

ainda tua


não vou me culpar
porque nosso tempo acabou
e o meu amor se perdeu
na distancia do caminho
antes, vou ser grata
pelos nossos dias e 
o quanto fomos bons
um para o outro

não me odeie
ou me esqueça

se você lembrar
dos nossos beijos
ali, ainda, levemente,
serei tua

Cáh Morandi

6 de junho de 2013

venha ficar



vi você nascer da minha
tristeza e virar beleza
enfeitando meus dias
que eram tão cinzas

vi sua delicadeza
espantando meus medos
me perdi nos seus dedos
tomando conta de mim

vi a felicidade se abrindo
como um dia de domingo
preguiçoso e bem-vindo
demorado em ficar

Cáh Morandi

5 de junho de 2013

sobre palavras




Tenho medo de escrever certas palavras. Posso me confessar sem perceber, posso ferir alguém sem a intenção de fazê-lo. Desmorono algumas frases, maquio as expressões. Alongo um pouco mais a vírgula. Quebro linhas, reinicio um parágrafo. Minha graça é a existência da poesia. Minha agonia é o que a precede. Meu desespero é quando ela sobra, dentro de mim.

Cáh Morandi

4 de junho de 2013

comigo




bonito é teu gesto
de me oferecer abraço
na minha desistência -
quando desacredito
da gentileza do amor
tu me fazes esta surpresa

quero retomar o ar,
respira este novo tempo, comigo -
nunca mais te perderei
de mim

Cáh Morandi

3 de junho de 2013

esqueço-me



amar na mesma medida
em que me esqueço

não sobra tempo para a dor
não crio memórias para tortura
nem me anseio para amanhã,
desacredito para não me iludir

estou profunda em mim,
não toque na minha esperança

Cáh Morandi

2 de junho de 2013

Nosso (improvável) amor



Nosso amor é uma expectativa constante, sobrevivemos do que pode ser.
Pode ser que amanhã você me ame. Pode ser que não.
O improvável alimenta nossos afetos. As possibilidades nos unificam.
Precisei fechar os olhos para enxergar o tamanho da sua importância na minha vida e quando despertei, amanheci em você, já não soube provar os dias de solidão. Estou para ti, porque só assim sei estar. 
Não conheço mais caminhos, não procuro novos mapas, faço minha história no permanecimento. Você é minha casa, meu terreno, minha pátria, meu lugar tranquilo, meu descanso, você é a bandeira sobre qual me estendo. Nos confundimos nos nomes e sobrenomes, nas datas e nascimentos. Não sei se eu termino, ou se você começa, ou então se é o avesso. Somos laço. Nos perdemos em um abraço, já não sobra dúvidas sobre ocuparmos o mesmo lugar no espaço. 
Hoje vamos inaugurar nosso amanhã.

1 de junho de 2013

somos



como eu poderia ainda pedir?
já me entreguei, já me rendi

de dentro de você respondo com tua voz
que já sou parte de ti

não vou porque já estou
não sou porque já és


Cáh Morandi

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