28 de março de 2013

"Quero as janelas abrir para que o sol possa vir iluminar nosso amor..."

(Título: Janelas abertas, Tom Jobim e Vinícius de Moraes)



O amor seria somente mais uma palavra. Uma palavra como outra qualquer: cadeira, livros, horizonte ou paralelepípedo. Uma palavra perdida em um dicionário. Uma palavra imprecisa em uma canção. Uma palavra escrita numa placa no deserto. O amor poderia ser o deserto ou a canção, porque às vezes, nos dá uma espécie de sede, em outras, um carinho ao pé do ouvido.

Quem sabe o amor passasse despercebido, em silêncio, tão em calmaria que nem distraísse minha atenção das outras coisas bobas do mundo. Quem sabe o amor chegaria, como chegam correspondências de promoções, que a gente amassa e joga fora. Quem sabe o amor viesse como uma rosa entre as outras rosas em buquê, e olhando de cima, é tudo tão igual. Quem sabe fosse uma rua desconhecida, um creme para as mãos, um jeito de sorrir ou olhar, uma mania, um prato árabe, uma pizza, um peixe que vive só no Mar Egeu, uma marca de xampu ou de relógio, um sabor de suco, uma fruta. Embora para tudo, seja todo o sentido.

Poderia sim ser quase nada, se não tivesse sido tudo. Poderia não ter significância ou significado, senão fosse você. Senão fosse seu riso me chamando para dançar no meio do mundo, senão fosse seu nome se espalhar por todos os cantos dos meus pensamentos e os poros da minha pele, senão fosse o seu olhar na primeira vez que te vi, senão fosse seu ar de segurança, senão fosse sua simplicidade em falar. Se por um momento só, você não tivesse sido tão profundo. Se por um momento só, não tivesse sido você, teria sido tudo inútil, teria sido tão em vão.

O amor vem depois de você, e as palavras vem depois do amor. Tão clichê, tão bobo, quando a gente quer dizer que está apaixonada e sente tão amada a ponto de esquecer o resto do mundo. Tão tola nossa forma mais planejada para não ser amarrada pela paixão. Não vale nada toda razão quando o coração desperta.

O amor seria sim como qualquer palavra, se não fosse sua chegada.

Cáh Morandi

27 de março de 2013

não me devolva



eu sei que é loucura
desejar ser só sua
até que a vida me dê seu ar
quero ser seu enredo,
teu enfeite, teu brinquedo
tão sério e tão risonho
que a realidade será um
sonho incapaz de nos chamar

que seja um abismo
caio no precipício
se você estiver lá

pegue meu destino
me leve em teu caminho -
não me devolva
nunca mais

Cáh Morandi

26 de março de 2013

Chantagem




Primeiro você me aparece e me mostra as coisas das quais, até ontem, eu não tinha medo. Eu acredito nelas e, de repente, elas se tornam muito mais do que uma simples crença. Me encoraja ao amor, retrocedo nos dedos. Vem, vende sonhos para nós, mas eu compro só para mim. Vejo um futuro, te chamo por cima do muro da saudade, estico os pés na esperança, me apoio na confiança, espero uma resposta do amor. Será que é só medo a nossa distância? Eu fico aqui com a pergunta e também com a resposta e eu as ofereço para você, como quem oferece um pedaço de vida. Você as toca, mas não as abraça. Você as vê, mas não as retribui. Você não existe. Primeiro eu desejei o amor, depois uma possibilidade, agora não desejo quase nada. Eu continuo, então, preso a esses sonhos comprados, evaporando meu amor, desistindo de uma vida para nós. Acho que é por esse poro que a esperança se esvai.


25 de março de 2013

sobre você


madrugada de um sábado qualquer
e seu sorriso me brindou
amanheci num domingo diferente
desses que a gente sonha
e acontece de repente

uma sede de saber tudo que te pertence
devolver tua fascinação das minhas palavras
a intimidade era nosso primeiro olhar
precisamos ir muito mais fundo
até você se achar em mim
até eu me permitir em você

uma semana para atravessar -
estou conhecendo o desespero



Cáh Morandi

22 de março de 2013

sobrenome


ah, como eu me sinto plena
quando ouço você me chamar
pelo meu sobrenome –
que por acaso ainda não é o seu –
quando vou poder me enfeitar
com a dureza e leveza da tua história?
não se engane, isto não é um pedido
é um jeito de dizer que vou contigo
até você querer meu sim.

incompleto-me. não é só teu sobrenome,
é minha vida que continua e se completa na tua.

Cáh Morandi

21 de março de 2013

entre seus braços


o seu abraço começa se abrindo
sobre meu peito e se fecha como um laço
a se enfeitar em minhas costas
vejo como ele gosta de me embrulhar
como seu presente, me guardar
para um futuro, de repente

se eu pudesse escolher, escolheria
me confessar frágil e não ser -
não me deixe sair daqui, dos 
teus braços -
minha estrada é permanecer.



Cáh Morandi

19 de março de 2013

e aí?




venha logo morar comigo
não resisto a distância
divido teto, peço abrigo
inventaremos domingos
descansaríamos um no outro
o que não dá, é ficar como está

case comigo, me dê um filho,
inverta meu futuro tolo
por um futuro bobo
de amor e poesia

Cáh Morandi

18 de março de 2013

sobre o egoísmo





sempre fui egoísta
no amor,
até você chegar.

adorei me perder
para você.


Cáh Morandi

16 de março de 2013

nascendo




só encontro quem sou
quando é tua voz que
diz meu nome, perco
a identidade, me troco
pelo não reconhecimento

só quero ser o que
nasço em tua palavra -
quero existir 
em tua boca


Cáh Morandi

15 de março de 2013

amor para ninguém



coleciono amores
que não posso corresponder
sou uma mulher de muitas palavras
mas não de muitas entregas
minhas asas são apenas poesias
meu coração tem raízes profundas
escrevo sobre sentimentos comuns
mas só é de um meu pensamento

tenho um amor universal,
mas é nele que me anulo -
nunca me espere,
não irei chegar.


Cáh Morandi

14 de março de 2013

saiba



Sinto que posso amá-lo. Sinto, não garanto que poderia realmente fazê-lo. Quero-o, mas tenho vergonha de manter o olhar fixo no dele, meu rosto cora e não consigo reunir meia dúzia de palavras inteligentes para lhe corresponder. Ajo feito boba. Sempre o perco em todas as chances que ele me dá para ganhá-lo. Não sou boa em conquistas, sou melhor em perder territórios.


Cáh Morandi

#diadapoesia

Olá queridos,

Venham compartilhar comigo, na Fan Page, o dia da poesia!
Beijos!


13 de março de 2013

reamadurecer




me recolho desprotegida
para dentro de um abraço
me desfaço das carências
renovo meus próprios votos
e sinto que quase posso
me deixar ser de alguém
quero a infância do amor -
reamadurecer sobre teu colo.

Cáh Morandi

12 de março de 2013

não vim




  • retomo o caminho de volta
    hoje pertenço ao ontem
    sou o que não amanheci
    o passo antes do precipício
    o sim que entrega o não
    de mim hoje, nada
    sobre passados, inteira

    não procuro chegar,
    hoje só quero partir.


    Cáh Morandi

    11 de março de 2013

    antes do fim




    não acaba quando a gente diz tchau
    não termina quando a mala é feita
    quando a porta bate, o olhar se perde,
    a confiança falha, a aliança cede
    muito antes o fim era previsto
    deu seus sinais, enganou no riso
    mas de repente se sente
    que tudo que você queria
    não é parecido com isso, talvez
    tenha errado, talvez foi certo no inicio
    foi até bonito, foi até poesia,
    mas não foi amor, poderia.
    eu teria acreditado.

    Cáh Morandi

    10 de março de 2013

    tudo certo



    lembro das minhas mãos entre as tuas
    eu me sentia segura apesar de saber
    que você era um conjunto de medos,
    penso que nos prendemo-nos entre dedos
    para não nos perdermos em nossa solidão

    lembro que teu apoio eram minhas pernas
    eu não tinha certeza de nada, mas te amava
    e te deixava construir um futuro de mentira
    que depois a gente ria para não chorar
    e desfazia a alegria no vir do dia-a-dia

    deu errado porque estávamos fazendo tudo certo
    e o mundo, e o amor, e a vida, são mesmo só ilusão.


    Cáh Morandi


    8 de março de 2013

    interrogações



    se a gente se distanciar
    em que lugar vamos parar
    para não nos perder?

    se você me esquecer
    onde colocar tudo
    que ficou pra viver?

    se eu te procurar
    em que lado do abraço
    da vida você estará?


    Cáh Morandi

    7 de março de 2013

    sem futuro


    entre nós o silêncio
    das palavras que recolhemos
    morre nos meus lábios
    o beijo para te dar
    recebo no teu olhar
    o gesto que não podes

    não teremos uma história
    mas seremos lembranças 
    inventadas

    Cáh Morandi

    6 de março de 2013

    Sobre uma mulher


    5 de março de 2013

    Guardo o amor dentro da esperança. Guardo a felicidade dentro da espera. Guardo a paz dentro do nosso encontro.

    Cáh Morandi

    para nós



    morrer com as palavras
    na boca –
    nenhum beijo
    para decifrá-las

    recolho letra por letra
    nunca nos diremos nada –
    seremos este amor
    jurado no silêncio
    que construímos

    ao menos temos um poema
    para relermos-nos, saber
    que estivemos em algum lugar
    um para o outro

    Cáh Morandi

    4 de março de 2013

    sobre seu futuro


    notícias daqui

    queria te contar que a vida aqui continua
    mais triste, mais recolhida e saudosa
    não pensei que os dias seriam tão longos
    nem que o coração deixasse ir tão fundo

    continuo me perdendo nas ruas
    decido sempre pela fila mais devagar
    ainda não comprei o enfeite da porta
    meus sanduíches ainda são de pão sírio
    Florianópolis ainda é linda de madrugada

    mando notícias do lado de cá
    espero que do lado de lá
    só venha sorrisos
    para mim

    Não demore, 
    a vida tem me cobrado urgências.


    Cáh Morandi

    1 de março de 2013

    sobre o riso


    Rimos até doer
    eu lembro
    até chorar

    pois rir 
    não é só felicidade,
    às vezes é desespero

    Cáh Morandi

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