28 de agosto de 2008

Revés

vou pegar um vôo
antes que seja tarde demais
eu vou, não volto
nem por céu, nem no cais

vou até os astros
antes que entardeça horizonte
eu vou, sem rastro
bem de fronte, bem na fonte

vou sem hora, sem demora
aventurar em outros ares
que aqui não mais posso ficar
no ansiar por novos mares

vou sem rota, sem derrota
procurar outra parte de mim
que não sei onde perdi
no começo ou perto do fim


(Cris de Souza & Cáh Morandi)

Mais perto



Não te tocar
Não saber o teor da tua pele
Não te sentir
Não descobrir como vibra tua voz
Não saber o que não é segredo
Nenhuma desconfiança
Nenhuma esperança nula
Algumas palavras vagas
Por não saber dizer
As palavras certas
Que te levariam a
Um sim, que te
Trouxessem para
Mim, que nos fizesse
Mais perto



(Cáh Morandi)

25 de agosto de 2008

Por enquanto


Deus, eu sei que tu me ouves. A madrugada inteira ficou me cutucando, muito espaço para a saudade se estender. Levantei incomodada, arrumei os lençóis, abri a porta da varanda, tentei dormir, mas era impossível. Deus, minha cama é muito grande, e não tem ninguém aqui para ocupar tanto espaço, o que fica espalhado são pedaços de passado e expectativas de futuro. Só um lado da cama acorda desfeito, e não o meu, porque tenho deitado imóvel: são minhas mãos sonolentas e esperançosas buscando algum vestígio, agarrando-se ao que não há. Deus, só diminua a minha cama para que nenhuma lembrança vá querer dormir comigo. E só quando der ou se puder, alguém para dormir e caminhar junto.
.
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(Cáh Morandi)

22 de agosto de 2008

Da Poesia Banhada a Lírios - Um presente de Davi Drummond

foto: o lírio em minhas costas e iniciais


(Davi Drummond para Cáh Morandi)


os lírios
que crescem
em suas costas
não crescem
pela água que
cai e se esvai

nem mesmo
existem sementes
que fazem brotar
novos ramos

pétala por pétala
a magia de seus lírios
transforma-se em versos líricos
que se espalham pelo chão
e por si renovam-se em cores

sendo flor
sua poesia é regada
por silêncio
ternura
e seus delírios

21 de agosto de 2008

Das insignificâncias da vida


Bastava o perfume que os cabelos deixavam nos travesseiros
E aquele beijo trocado em plena tarde de uma segunda feira agitada
Bastava aquela conversa sobre um assunto sem nexo no café da manhã
E as gargalhadas do ser amado vendo TV em plena madrugada
Bastava estarem abraçados e ainda deitados num dia preguiçoso
E implicarem antes de um passeio por causa de uma saia minúscula
Bastava mesmo que fosse uma briguinha antes de começar o dia
E você ficar pensando o dia todo em alguma forma de reconciliação
Bastava que ele chegasse, mesmo esquecendo das compras da semana
E que ela te perguntasse a cada minuto se você a amava

São nessas pequenas horas que se descobre ter sido feliz,
Mas isso é coisa que demora uma vida toda para se perceber



( Cáh Morandi )

20 de agosto de 2008

Mar Aberto





Um dia nós vamos nos cruzar
de amores novos
e aí não sei no que vai dar
se vamos só passar um pelo outro
ou vamos segurar um pouquinho o olhar
vai ser muita coisa para passar na mente:
muitos filmes, muitos discos,
muitos livros de presente,
muitos planos, muitos domingos,
muitas viagens, muitas sacanagens
e isso vai doer mais do que quando
fomos nos abandonando,
pois a dor é justamente a lembrança:
é a saudade de quando a vida nos
era um mar aberto arrebentando ondas




(Cáh Morandi)

17 de agosto de 2008

imagem: alone gut

(Para meu amor)

- Devíamos ter mais opções de escolha.
- Como assim?
- Escolher de quem gostar, por exemplo...
- Isso não dá.
- E se desse, o que você faria?
- Ainda assim escolheria você.



(Cáh Morandi)

14 de agosto de 2008

Casa Abandonada


É que agora – aqui dentro – a casa foi ficando meio empoeirada, como se toda essa mobília sentimental não tivesse sendo mais usada, a janela foi deixada aberta e tanto vento foi passando, levando as cores dos retratos e deixando o pó como ressarcimento.Aqui em casa não tem mais conforto, tudo virou incômodo, e às vezes nem em casa eu me sinto. Não tem mais abraço, não tem mais teto para pintar de sonhos toda a noite, nem tapete colorido para deitar no domingo. Tudo daqui foi sumindo, não tem mais ninguém nessa casa, só um eco se espalha quando eu volto e os passos ficam rangendo o assoalho, e fica uma sensação estranha de ver cinza onde tudo foi festa e euforia. Na porta de entrada eu sempre pedia um beijo, até que um dia o beijo foi de despedida.



(Cáh Morandi)

13 de agosto de 2008


Eu queria que quando de minha parte já não houvesse mais nada, você me desse algo de esperança, algo que só as lembranças boas poderiam me ascender, queria que me desse algo de delicado e bonito, e aquela gana que tínhamos, aquela fé um no outro, para que eu desejasse tudo de novo e ainda mais. Para que eu me apaixonasse por você como na primeira vez, queria que me desse o amor que a gente fez só de se olhar.
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(Cáh Morandi)

12 de agosto de 2008

Domingão

É uma delicadeza
Um domingo a tarde contigo no sofá
Receber tua cabeça em minhas pernas
Alisar teu cabelo, escutar teus sonhos
Ver o teu riso se transformar em choro
E de um choro pular a um extremo gozo
Ver teus medos se espalhando pela sala
Sentir teus planos abraçando corpo e alma
A TV ligada, mas nada nos importa
Não nos pertence mais o mundo lá fora,
Nem as horas, nem os sons das buzinas,
Nada nos tira do nosso momento de agora


(Cáh Morandi)

11 de agosto de 2008

Quando vier meu mundo


Logo virá um tempo
Em que eu terei um mundo
feito para mim;
Regarei a minha terra,
Cuidarei de minhas flores,
Alimentarei os meus sonhos;
Hei de olhar dentro dos olhos
Verdes e pequenos do
[ meu mundo ]
E soltar seus cabelos castanhos
Para voarem ao vento;
Hei de pegar as mãos
Pequenas e delicadas do
[ meu mundo ]
E conduzi-lo a um lugar
Onde só haja paz;
Hei de amar por completo
E sem medida o
[ meu mundo ]
E depois dá-lo a um mundo
Que não sei quem é o dono;
Mas ele irá lembrar das
Coisas de meu tempo;
E ele irá se sentir seguro
Quando lembrar do meu
Olhar fixo;
E de minhas mãos
segurando
As suas, firmes!
.
.
(Cáh Morandi)

7 de agosto de 2008

Para as lembranças



Para que a dor seja maior depois que o nosso tempo tiver passado, prefiro te ser mais presente nas coisas simples: nas brincadeiras com pipocas nos filmes, na hora do banho em que brinco com o sabonete em tuas costas, nos bilhetinhos que deixo entre tuas roupas, nas marcas de minhas unhas em tuas coxas, em todo meu preparo para lavar louça, o meu corredor preferido no supermercado, minha inquietude em não poder te ver deitar de lado e já me encaixar em você. Em tudo vou deixar um pouco do meu jeito: no reflexo do espelho, em quando eu te pedia um beijo e meu rosto se sujava do creme barbeador, me manter viva nos segundos, nos domingos em que planejávamos mudar o mundo sentados no sofá. Prometo me espalhar por todos os cantos da casa, e não te deixar me esquecer em nenhum gesto ou sorriso em um futuro amor que você possa ter.




(Cáh Morandi)

6 de agosto de 2008

Visitante no blog

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto...


(Paulo Leminski)

5 de agosto de 2008

Meu lado bom


o homem que eu amo
é minha parte mais bonita
minha parte mais poética
minha parte mais penteada
minha parte mais bem vestida
eu sozinha sou quase nada
porque é ele que me enfeita
é ele que me adorna
é ele que me torna
uma mulher completa,
intensa, repleta

3 de agosto de 2008

uma estrela e um astro


pegas meu corpo
me prendes num abraço
giramos no espaço
me levas no céu
me pintas no alto
perto d’uma estrela
coberta de luz
luzindo meu astro

amor traidor



nossos braços se cruzam nas costas
em meio as promessas falsas de um pecador
na meia luz são só meios corpos
me enrosco nas pernas do meu traidor
os beijos são cheios de salivas amargas
as palavras tão claras de um doce rancor
no fim a gente nega, se perde na entrega,
uma indiferença tão perto do amor



(Cáh Morandi)

1 de agosto de 2008

meu homem e seu menino



dentro dele
tem um menino que me olha
medroso e inseguro
que se esconde
atrás de um homem de barba
enquanto me abraça
um que me pesa o corpo
um que me pesa a alma
ele ri, ele e o menino
os dois tão perdidos
que não se sabem
quem está mais dentro
um do outro



(Cáh Morandi)

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